Moçambique continua a enfrentar um dos mais persistentes desafios de saúde pública da actualidade: a Tuberculose. Embora globalmente tratável e prevenível, a doença mantém-se como uma das principais causas de morte no país, revelando fragilidades estruturais que vão muito além do sistema de saúde.

Só em 2023, estima-se que 112 mil pessoas tenham desenvolvido a doença, mas cerca de 17.400 casos permanecem por diagnosticar, reflectindo dificuldades persistentes no acesso aos cuidados de saúde.
Os dados mais recentes apontam para uma realidade inquietante: dezenas de milhares de novos casos surgem anualmente, mas uma parcela significativa permanece por diagnosticar. Este silêncio estatístico representa mais do que números em falta — traduz-se em cadeias activas de transmissão, agravadas por diagnósticos tardios e acesso desigual aos serviços de saúde.
A complexidade do problema intensifica-se com a forte associação ao VIH. Em Moçambique, a co-infecção entre tuberculose e VIH continua a ser um dos principais factores de mortalidade, numa relação que compromete o sistema imunitário e acelera a progressão da doença. Este cenário coloca o país entre os mais afectados ao nível global, exigindo respostas coordenadas e sustentadas.
Para especialistas como Helen Hallstrom, a leitura da tuberculose deve ser feita à luz das condições sociais. A desnutrição crónica, a pobreza e as limitações no acesso a cuidados médicos criam um ambiente propício à propagação da bactéria Mycobacterium tuberculosis. Não se trata apenas de uma questão médica, mas de um reflexo directo das desigualdades estruturais que persistem no país.
A emergência de formas resistentes da doença acrescenta uma nova camada de complexidade. A tuberculose resistente a medicamentos exige tratamentos mais prolongados, dispendiosos e menos acessíveis, colocando pressão adicional sobre os serviços de saúde. Paralelamente, o estigma social continua a ser um obstáculo silencioso, afastando muitos doentes do diagnóstico e tratamento atempados.
Apesar dos desafios, há sinais de mudança. A introdução de soluções digitais para rastreio e acompanhamento de pacientes começa a redesenhar a resposta à doença, permitindo alcançar comunidades mais remotas e melhorar a adesão ao tratamento. Ainda assim, estas iniciativas, por si só, não são suficientes.
(Por Rafael Langa)

