‎Num tempo em que o conhecimento se torna cada vez mais determinante para o destino das nações, o escritor e pensador moçambicano Mia Couto lançou um olhar profundo sobre o papel das universidades na construção de um paÃs mais ético, plural e resistente.

A reflexão foi recentemente apresentada durante a aula inaugural da Universidade Católica de Moçambique (UCM), intitulada “Construir Moçambique a partir da Universidadeâ€, onde o autor destacou a necessidade de fortalecer uma relação simbiótica entre a cidade e o espaço académico.
Para Mia Couto, a universidade não pode existir como uma ilha de saber isolada do mundo que a rodeia. Pelo contrário, deve dialogar permanentemente com a cidade, tendo em conta os seus desafios sociais, económicos e culturais para que o conhecimento produzido dentro das suas paredes encontre sentido e utilidade na vida real.
“É preciso haver uma relação simbiótica entre a cidade e a universidadeâ€, afirmou, sublinhando que o futuro de Moçambique depende desta troca viva entre reflexão académica e experiência colectiva.
No centro desta visão está a ideia de que o ensino superior precisa de cultivar uma ética própria. Num mundo onde os desafios da educação ultrapassam fronteiras nacionais e assumem dimensão global, Mia Couto defende que cada universidade deve afirmar valores capazes de orientar não apenas a formação técnica, mas também a consciência social dos seus estudantes.
‎Segundo o escritor, formar um engenheiro, médico ou jurista não significa apenas transmitir conhecimentos especializados. Significa, acima de tudo, preparar cidadãos para um mundo complexo, onde nem tudo é imediatamente perceptÃvel e onde as decisões profissionais carregam inevitavelmente consequências humanas e sociais.
“A universidade tem a obrigação ética de avisar o estudante que ele vai entrar num mundo em que nem tudo será visÃvel ou evidenteâ€, sublinhou, lembrando que a verdadeira educação não se limita ao domÃnio de técnicas ou teorias, mas envolve a capacidade de questionar, compreender e agir com responsabilidade.
‎Para Mia Couto, esta dimensão ética é decisiva para o futuro do paÃs. Moçambique, defende, só se tornará verdadeiramente resistente se cultivar uma cultura de pluralidade e integridade. A universidade, nesse sentido, surge como um laboratório de valores, um espaço onde se experimentam ideias, se confrontam visões e se formam consciências capazes de dialogar com a diversidade do mundo.
‎‎A aula inaugural transformou-se, assim, numa reflexão mais ampla sobre o papel da educação superior no desenvolvimento nacional. Ao defender que o conhecimento académico deve estar profundamente ligado à vida da cidade, Mia Couto propõe uma universidade que não apenas observa a sociedade, mas que participa activamente na sua transformação.
(Por Rafael Langa)

