Cynthia Soares: o despontar de uma carreira promissora

"Nunca imaginei que a minha música pudesse chegar a tantas pessoas. A Mbenga Live Session deu-me esse espaço e essa confiança. É só o começo", declarou Cynthia Soares, no final do concerto.

Cynthia Soares. Foto: Mbenga

Sala esgotada, público rendido e a certeza de que se assistiu ao despontar de uma carreira promissora marcaram, recentemente, o concerto de Cynthia Soares na Mbenga Live Session, no Estúdio Auditório da Rádio Moçambique. A jovem cantora e compositora, de 24 anos, não tinha ainda um concerto inteiramente seu. Agora, tem. E dificilmente alguém que ali esteve esquecerá a noite.

Famílias, amigos e admiradores lotaram o espaço, muitos chegaram a tempo de assistir ao teste de som (checksound), numa demonstração de expectativa que raramente se vê em concertos de artistas emergentes.

A jovem banda entrou primeiro. Júlio, nos teclados, foi a âncora silenciosa da noite – nunca se sobrepôs, mas sem ele nada teria funcionado. Kolin, na bateria, deu o pulso certo: firme quando precisava de ser, contido quando a música pedia espaço e explosivo quando necessário. Kelvin, no baixo, foi a espinha dorsal, discreto, mas cada nota sua sustentava o som como uma coluna invisível.

Lucas, na guitarra, confessou antes do concerto ser fã de Albino Mbie. E tocou como tal: com calma, com segurança, com solos que nunca desequilibraram a banda. Chabir, no saxofone, mostrou que conhece o caminho de Moreira mas procura o seu próprio lugar. E encontrou-o, naquela noite, em cada frase que soprou.

Nos coros, Nephew 258 e Rossana fizeram um trabalho de ourives, nunca à frente, nunca atrás, sempre no lugar exacto onde deviam estar.

No camarim, o antigo estúdio de emissões, adaptado desde o início do projecto, não há espelhos. Cynthia vestiu-se sem opiniões: calças jeans, blusa leve e sapatos altos e brilhantes, que contrastavam com a humildade do restante figurino e lembravam a dimensão da artista que começava a afirmar-se.

Quando subiu ao palco, a sua voz perdeu-se por breves instantes num desequilíbrio de som, rapidamente corrigido pelos técnicos. A partir daí, Cynthia conduziu um espectáculo que revisitou o seu percurso, alternando entre temas conhecidos e canções inéditas.

Os duetos foram um dos pontos altos da noite. "Kho Kho Kho" com Nephew 258 foi impecável. O tema com um toque afrobeat levou o público ao delírio. "Brisa do Olhar" com Denilson LA deixou no ar a promessa de um futuro êxito.

John Francy, convidado especial, actuou sozinho em "Minha Flor". Lenox, que não compareceu para o dueto previsto em "Ainda Tens Efeito", surgiu no final, subiu ao palco para se desculpar e concluiu a interpretação a dois.

O alinhamento incluiu ainda "Comando", "Não te esqueci", "Labirinto", "Espelho", "Céu Azul", "Distance", uma mistura de temas conhecidos e inéditos que deverão figurar no primeiro álbum da artista.

Um dos momento mais emocionante ocorreu durante a actuação de Badjero em "Ai Menina": o músico pediu ao público que se levantasse, apagou as luzes, e dezenas de telemóveis acenderam-se na sala, criando uma atmosfera de grande cumplicidade.

O concerto integrou a temporada 2026 da Mbenga Live Session, um projecto da Plataforma Mbenga Artes e Reflexões em parceria com a Rádio Cidade 97.9 FM, que tem promovido a nova música moçambicana com entrada solidária. No final, a sensação generalizada foi de que se assistiram a um concerto que marcou o nascimento de uma estrela.

"Este é o nosso propósito: dar voz à nova música moçambicana, criar palco e público para quem está a começar", afirmou Hélio Nguane, curador e director criativo da Mbenga Live Session.

"Nunca imaginei que a minha música pudesse chegar a tantas pessoas. A Mbenga Live Session deu-me esse espaço e essa confiança. É só o começo", declarou Cynthia Soares, no final do concerto.

(Por Hélio Nguane)