A Mafalala é, por muitas razões, o “baluarte” da poesia moçambicana.

As memórias sobre a Mafalala desafiam-nos sempre a encarar o bairro como uma espécie de santuário das artes e cultura moçambicanas. Hoje transformada em Fundação Craveirinha, a antiga casa de José Craveirinha (1922-2022) – primeiro africano vencedor, em 1991, do Prémio Camões, o maior galardão literário da língua portuguesa – é um dos pontos de paragem obrigatória para quem faz uma digressão turística pelo local.
A Mafalala é, por isso e por muitas outras razões, o “baluarte” da poesia moçambicana. O Prémio Camões conquistado por Craveirinha apenas veio comprovar por que ele é chamado de poeta maior. A sua antiga casa, hoje Fundação Craveirinha, continua guardiã do seu rico espólio, que ultrapassa as fronteiras da literatura. Afinal, o marido de “Maria” – nome da sua esposa e também de um dos seus livros – aventurou-se igualmente no desporto. Foi, aliás, ele quem descobriu Lurdes Mutola e a apresentou ao seu filho, Stélio, que a treinou até se tornar campeã mundial de atletismo.
E, se muito mais se pode dizer sobre Craveirinha, o mesmo acontece com Noémia de Sousa (1926-2002), considerada a mãe dos poetas moçambicanos, por ter sido uma das pioneiras da poesia moçambicana. Foi na sua antiga residência que viveu, nos anos 1940, e produziu obras fundamentais para a literatura de resistência, como “Deixa Passar o Meu Povo”.
A sua antiga residência consta no mapa turístico da zona, ligada à memória de Noémia de Sousa enquanto poetisa e jornalista que, tal como Craveirinha, lutou contra o colonialismo português.
No entanto, Mafalala não respira apenas poesia. Por aqui também passou Fany Mpfumo, considerado por muitos o pai da marrabenta. Foi neste local que o músico recebeu a alcunha de “Fany”, sendo esta uma das razões pelas quais a sua antiga residência é um dos pontos turísticos mais emblemáticos do bairro, facilmente identificável pela sua cor azul e pela construção em chapa.
E, como se propala que quem canta provavelmente quer dançar, este elemento conecta-se ao facto de o bairro ter também acolhido Augusto Cuvilas (1971-2007), um dos pioneiros da dança contemporânea em Moçambique, que, em 2003, se tornou o primeiro moçambicano a vencer um prémio internacional no Danse L’Afrique Danse.
E, falando em dança, actualmente um dos maiores símbolos da Mafalala é o Tufo da Mafalala, um grupo que espelha a diversidade cultural e artística existente no bairro. O agrupamento celebra a beleza da mulher emakhuwa através de danças tradicionais típicas de Nampula e de influência afro-árabe como tufo, ndzope e matsepwa.
(Por Lucas Muaga)

