Artesão anónimo é herói de “Sonhos de Barro”

Um livro de sonhos e para sonhadores, assim se pode considerar a obra infantil de estreia de Fernanda da Lena, “Sonhos de Barro”.

Foto: Massinhane

Lançada recentemente em Inhambane, província onde foi distribuída gratuitamente pelas escolas, a obra homenageia os artesãos, que têm o dom de transformar o barro em narrativa silenciosa.

Trata-se da primeira obra literária da autora moçambicana. No entanto, é uma arte mais didática sobre o artesanato e suas nuances.

Esta é provavelmente a sua grande magia.
Fernanda da Lena, nome já conhecido na crítica de arte, revelou que a inspiração veio observação do trabalho da escultora Renata Sadimba, uma das cabeludo figuras do artesanato no país e no mundo. Esta é uma aula sobre ela e tantos outros mas criadores anónimos.

“Vi que aquelas esculturas em barro contavam histórias. Pensei: quem são os homens e mulheres que, com as mãos, concretizam os nossos sonhos colectivos? Este livro é a resposta”, contou.

Segundo ela, “o verdadeiro poder não é do martelo, é das mãos que moldam o barro todos os dias nas nossas feiras e mercados. A magia é uma metáfora para o acto criativo do artesão, que o mundo muitas vezes ignora”.

A ideia de distribuir o livro pelas escolas de Inhambane reforça ainda mais o propósito l de valorização dos criadores de barros.

“Muitas crianças veem o barro nas mãos dos seus avós, pais ou vizinhos, mas não valorizam esse saber. Quisemos mostrar que essa tradição não é só memória, é fonte de imaginação e futuro”, explicou o editor da Massinhane Edições, Miguel Chissano.

O ilustrador Stefany Virgílio, que deu forma visual à narrativa, confirmou a abordagem.

“Desenhamos as criaturas de barro com texturas e cores que remetem directamente ao trabalho dos mestres artesãos de Inhambane. São uma extensão da sua arte”.
Para Fernanda da Lena, “Sonhos de Barro” é uma forma de “restituir o lugar de destaque” a estes criadores.

“O artesão é o primeiro contador de histórias de qualquer cultura. No nosso caso, modela a nossa identidade com as mãos. Espero que, ao lerem este livro, as crianças olhem para o barro - e para quem o trabalha - com novos olhos”.

O livro, resultado de uma parceria entre a Massinhane Edições e o Conselho Provincial da Juventude de Inhambane, estará disponível nas livrarias a partir nos próximos dias.

(Por Joana Mawai)