A cultura é o conjunto de valores, práticas, tradições, expressões artísticas, conhecimentos, crenças e modos de vida que uma comunidade partilha. Vai desde a língua, música e culinária, até às formas de convivência, memória colectiva e símbolos.

Ela desempenha um papel essencial na construção da paz, reconciliação e coesão social, e é neste espírito que surge o PROPAZ, que é Cultura para a Promoção da Paz, com o apoio da União Europeia e implementado por um consórcio de organizações (CISP, IVERCA, LeMuSiCa e IMD).
Desde 2022, o projecto actua em Manica, Sofala e Tete, promovendo laboratórios criativos, performances, intervenções visuais e espaços de diálogo, transformando memórias da guerra em plataformas de encontro e cura colectiva.
No centro desta iniciativa está agora a exposição itinerante “Os Adivinhos dos Fabricantes da Paz”, do artista moçambicano Gonçalo Mabunda, reconhecido nacional e internacionalmente. O artista utiliza armas desativadas, desde AK-47, rockets, pistolas e munições para criar esculturas que evocam máscaras, tronos e totens. Cada peça é um acto de desarmamento simbólico: onde houve destruição, surge forma, memória e esperança.
Estas obras percorrem as cidades de Tete, Chimoio e Beira, num exposição que ultrapassa o espaço da galeria e se torna justiça cultural. Assim, Mabunda levará a sua arte às comunidades afectadas pela guerra, afirmando a cultura como direito e ferramenta de paz.
Mabunda, nascido em Maputo em 1975, é uma das vozes mais sonantes e originais do panorama artístico africano. Presente em museus e bienais de renome internacional, como o Centre Pompidou, Guggenheim e Bienal de Veneza, o artista alia estética africana e modernista para dialogar com as cicatrizes do colonialismo, guerra civil e desigualdade. O seu percurso artístico começou no Núcleo de Arte de Maputo, tendo participado em projectos pioneiros como o Transforming Arms into Art.
O Embaixador da União Europeia, Antonino Maggiore, destacou que a paz e a reconciliação são processos de longo prazo, que exigem, não apenas segurança, mas também desenvolvimento inclusivo e fortalecimento das comunidades. Sublinhou ainda que a exposição “Os Adivinhos dos Fabricantes da Paz”, de Gonçalo Mabunda, simboliza esse compromisso colectivo, ao transformar armas desativadas em obras de arte que inspiram diálogo, esperança e unidade.
Já Karen Sibell Yin Rafael, Coordenadora do projecto PROPAZ no CISP Moçambique, destacou que a arte tem um papel essencial na cura colectiva e na reconciliação do país. Sublinhou que a exposição itinerante de Gonçalo Mabunda transforma armas de guerra em símbolos de paz, memória e dignidade, convidando as comunidades a reflectirem sobre o passado e a construírem, juntas, um futuro mais justo e pacífico.
Por outro lado, o curador da exposição e presidente da Associação IVERCA, Ivan Laranjeira, salientou que o projecto PROPAZ tem aproximado as artes das comunidades afectadas pelo conflito, promovendo cura colectiva, memória e reconciliação. Destacou que as esculturas de Gonçalo Mabunda, feitas a partir de armas de guerra, reflectem a história e a cultura de Moçambique, criando novas narrativas de esperança, pensamento crítico e paz.
As obras de Mabunda so feitas com base em material bélico proveniente dos rocessos do Desarmamento, Desmobilizao e Reintegração o (DDR). A mensagem é clara: A paz não nasce apenas de acordos, mas de encontros, memórias partilhadas e símbolos que curam. Cada visitante é convidado a recflectir.
(Por Joana Mawai)

