{"id":3837,"date":"2025-09-30T07:25:11","date_gmt":"2025-09-30T07:25:11","guid":{"rendered":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/?p=3837"},"modified":"2025-09-29T07:25:36","modified_gmt":"2025-09-29T07:25:36","slug":"feminicidio-o-luto-implantado-nas-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/2025\/cooperation-and-development\/feminicidio-o-luto-implantado-nas-familias\/","title":{"rendered":"Feminic\u00eddio:\u00a0o luto implantado nas fam\u00edlias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">Foram 43 feminic\u00eddios e 42 viola\u00e7\u00f5es sexuais em apenas nove meses. S\u00e3o estat\u00edsticas que escondem gritos, dor, sangue e sil\u00eancios. Cada caso n\u00e3o \u00e9 apenas um n\u00famero: foi o caminho de uma vida ceifada, um corpo violentado, uma inf\u00e2ncia roubada. S\u00e3o mulheres, raparigas e crian\u00e7as que, por tr\u00e1s destes dados, carregam a dor da mal\u00edcia humana que se alimenta da fragilidade alheia.<\/p>\r\n\r\n<figure id=\"attachment_3841\" aria-describedby=\"caption-attachment-3841\" style=\"width: 656px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3841\" src=\"https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-486-1.png\" alt=\"\" width=\"656\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-486-1.png 656w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-486-1-449x274.png 449w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-486-1-150x91.png 150w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-486-1-492x300.png 492w\" sizes=\"auto, (max-width: 656px) 100vw, 656px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3841\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Freepik<\/figcaption><\/figure>\r\n\r\n<p>Quarenta e tr\u00eas mortes significam luto em 43 fam\u00edlias. Quarenta e duas viola\u00e7\u00f5es representam traumas em 42 mulheres, raparigas e nos seus familiares. Estes n\u00fameros dizem respeito apenas \u00e0s viol\u00eancias tornadas p\u00fablicas, o que implica que h\u00e1 muito mais mulheres caladas bruscamente no pa\u00eds.<\/p>\r\n<p>Entre os factores que sustentam a persist\u00eancia deste mal que assola a sociedade, destacam-se as fragilidades das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e a preval\u00eancia de narrativas sociais que n\u00e3o defendem a vida e a dignidade das mulheres.<\/p>\r\n<p>O feminic\u00eddio vai al\u00e9m de ser o acto de matar uma mulher: \u00e9 a tentativa de matar a dignidade, de sufocar a liberdade e de enterrar a esperan\u00e7a de toda uma sociedade. \u00c9 o crime que denuncia a incapacidade de proteger quem mais precisa, revelando uma crueldade que transforma o lar em campo de guerra e o companheiro em carrasco.<\/p>\r\n<p>A viola\u00e7\u00e3o sexual, por sua vez, fere mais do que a pele: humilha, cala e condena as v\u00edtimas a uma pris\u00e3o invis\u00edvel de trauma. N\u00e3o h\u00e1 maior mal\u00edcia do que invadir o corpo de uma rapariga ou de uma mulher, reduzindo a sua exist\u00eancia a um objecto de prazer for\u00e7ado. Cada viola\u00e7\u00e3o \u00e9 um ataque \u00e0 humanidade inteira, pois arranca a inoc\u00eancia de quem ainda acreditava no respeito, no amor e na compaix\u00e3o.<\/p>\r\n<p>Dados da Procuradoria da Rep\u00fablica de Mo\u00e7ambique revelam que, a cada dois dias, uma em cada duas mulheres \u00e9 assassinada. Para o Secret\u00e1rio de Estado do G\u00e9nero e Ac\u00e7\u00e3o Social, Abdul Razak Esmail, trata-se de actos que \u201cbanalizam a vida humana\u201d, uma vez que, dia ap\u00f3s dia, diferentes formas de viol\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 ceifam vidas, mas tamb\u00e9m destroem os valores mais elementares que sustentam a conviv\u00eancia humana.<\/p>\r\n<p>Quando a sociedade assiste impass\u00edvel \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o destes crimes hediondos, a mensagem que ecoa \u00e9 de permissividade e impunidade. \u00c9 uma leitura que tamb\u00e9m faz a activista social Quit\u00e9ria Gueringane, que considera que a mal\u00edcia destes actos n\u00e3o se mede apenas pelo sofrimento imposto \u00e0s v\u00edtimas, mas tamb\u00e9m pela indiferen\u00e7a que os acompanha. Para ela, cada mulher assassinada, cada rapariga violada, \u00e9 a prova de que ainda se vive num lugar onde a vida delas vale menos.<\/p>\r\n<p>A activista lamenta ainda a fragilidade das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e a persist\u00eancia de determinadas pr\u00e1ticas culturais que conferem poder aos homens sobre as mulheres, perpetuando o ciclo da viol\u00eancia em Mo\u00e7ambique.<\/p>\r\n<p>E enquanto o sangue continua a correr em Maputo, Sofala e Gaza, que s\u00e3o as prov\u00edncias com maior incid\u00eancia destes crimes, a pergunta que ecoa \u00e9: quantas mais mulheres ter\u00e3o de ser sacrificadas para que se entenda que o feminic\u00eddio e a viola\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o s\u00e3o casos isolados, mas sim sintomas de um mal profundo que corr\u00f3i o pa\u00eds?<\/p>\r\n<p>(Por Joana Mawai)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Foram 43 feminic\u00eddios e 42 viola\u00e7\u00f5es sexuais em apenas nove meses. 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