{"id":2049,"date":"2024-08-23T13:03:11","date_gmt":"2024-08-23T13:03:11","guid":{"rendered":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/?p=2049"},"modified":"2024-08-23T13:03:28","modified_gmt":"2024-08-23T13:03:28","slug":"the-chronicle-of-the-miserable","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/2024\/culture\/the-chronicle-of-the-miserable\/","title":{"rendered":"A cr\u00f3nica sobre os miser\u00e1veis"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2123\" aria-describedby=\"caption-attachment-2123\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2123\" src=\"https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/miseria-700x467.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/miseria-700x467.jpg 700w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/miseria-2000x1333.jpg 2000w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/miseria-768x512.jpg 768w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/miseria-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/miseria-449x300.jpg 449w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/miseria-150x100.jpg 150w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/miseria-450x300.jpg 450w, https:\/\/mozavibe.co.mz\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/miseria.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2123\" class=\"wp-caption-text\">Foto: FFLC (H\u00e9lio Nguane falando dos seus \"Lagartos\")<\/figcaption><\/figure>\r\n\r\n<p><br \/>\r\nA capa deste \u2018\u2018Lagartos de Madeira e Zinco\u2019\u2019 anuncia um livro de cr\u00f3nicas, este g\u00e9nero num p\u00eandulo entre o Jornalismo, enquanto aquele texto que tenta ser um flagrante do real e a Literatura pela forma que este flagrante do real nos chega e as cores com que se pintam os quadros-textos para que o jornal valha at\u00e9 depois do dia seguinte. A cr\u00f3nica acaba sempre por ser uma segunda vida do Jornalismo e uma vida anterior e interior da Literatura, a sobreviver a passagem do tempo. Tanto estes textos sobreviveram que agora est\u00e3o compilados em livro. <br \/>\r\nAs cr\u00f3nicas que fazem este \u2018\u2018Lagartos de Madeira e Zinco\u2019\u2019 foram, inicialmente, publicadas no Jornal Not\u00edcias. Era um encontro semanal com personagens cujo destino estava inscrito no pr\u00f3prio nome como Jo\u00e3o Matandza, John Perigo, Andr\u00e9 Ximovane. Mas tamb\u00e9m com o seu autor. Agora, compiladas assim em livro, temos a grande fotografia de v\u00edtimas da pr\u00f3pria circunst\u00e2ncia e percebemos que s\u00e3o feitas destes escombros de uma vida que implodiu sobre si mesma. S\u00e3o pessoas-personagens que saem das casas de madeira e das chapas enferrujadas, amantes dos senta-baixos, filhos de fam\u00edlias que vivem a pensar futuro como se fosse a \u00fanica forma de passar inc\u00f3lume sobre as brasas do presente. S\u00e3o cr\u00f3nicas de cariz social, mas n\u00e3o a perseguir a pauta did\u00e1tica, mas como retalhos marginais do tecido quotidiano dos sub\u00farbios que os alfaiates descartam e entopem os drenos. Conhecemos as hist\u00f3rias das pessoas-personagens, vemos-lhes a luz s\u00e9pia nas paisagens em que se movem, sentimos-lhes os cheiros. E nisto a descri\u00e7\u00e3o, que h\u00e1-de ser das maiores ferramentas que estas cr\u00f3nicas v\u00e3o buscar \u00e0 reportagem jornal\u00edstica de que H\u00e9lio Nguane \u00e9 um ex\u00edmio escultor, jogam um papel importante. Atentemo-nos aos dois primeiros par\u00e1grafos do conto \u2018\u2018O corpo n\u00e3o identificado\u2019\u2019: <br \/>\r\n\u2018\u2018A BACIA estava estacionada num canto solit\u00e1rio da casa. Cheia de \u00e1gua, restos de folhas de cebola, couve, alho, pimenta e arroz, e o recipiente exalava um cheiro caracter\u00edstico. As moscas rondavam o local. Os donos da resid\u00eancia ensaiavam a sua sa\u00edda. O sol, aos poucos, libertava raios intensos. O galo preparava as cordas vocais, o orvalho embelezava o capim verde e outras plantas.<br \/>\r\nA porta abriu-se, as chapas da casa de madeira e zinco est\u00e3o transpiradas e, de tr\u00eas em tr\u00eas minutos, uma gota deixa o tecto da resid\u00eancia e bate no ch\u00e3o. A terra est\u00e1 h\u00famida, os passos do galo, que h\u00e1 tr\u00eas minutos cantou, ainda est\u00e3o em evid\u00eancia.\u2019\u2019<br \/>\r\nNesta cr\u00f3nica temos as geografias e as vidas que animam grande parte dos textos. Esta incurs\u00e3o aos sub\u00farbios com as hist\u00f3rias e est\u00f3rias que lhe s\u00e3o caracter\u00edsticas como encontramos nos dois volumes de \u2018\u2018Cadernos de Mem\u00f3ria\u2019\u2019 de Aldino Muianga ou em \u2018\u2018Xicandarinha\u2019\u2019 de Calane da Silva. <br \/>\r\nOutros cultores da cr\u00f3nica, como os brasileiros Nelson Rodrigues e Fernando Sabino, ensinaram-nos que a cr\u00f3nica, apesar de explorar as minud\u00eancias da vida quotidiana, os dramas a pesarem ao ombro, tamb\u00e9m \u00e9 feita da gra\u00e7a que se encontra no inesperado, no imprevisto. E encontramos isto neste livro, a t\u00edtulo de exemplo podemos citar \u2018\u2018Newcastle quis matar a festa I e II\u2019\u2019, qu\u2019 \u00e9 sobre uma fam\u00edlia que andou a engordar uma galinha desde Junho para animar as refei\u00e7\u00f5es de fim de ano e ter de encontra-la, nas v\u00e9speras do natal, morta de doente. <br \/>\r\nMas, como dizia Rubem Braga, escrever cr\u00f3nicas \u00e9 viver em voz alta. E muitas vezes encontramos textos confessionais do autor. E temos a sensa\u00e7\u00e3o estranha de quem \u00e9 flagrado em bicos dos p\u00e9s com o ouvido sobre as chapas que fazem o muro da casa do vizinho. \u00c9 nas cr\u00f3nicas como \u2018\u2018Lagartos na cama\u2019\u2019 ou \u2018\u2018Madeira e zinco\u2019\u2019 que sentimos a ang\u00fastia que move ao cronista e o desespero de quem sente a ampulheta a mandar os \u00faltimos gr\u00e3os de areia para baixo. <br \/>\r\nH\u00e9lio Nguane escreve vencido sobre os vencidos, sem a pretens\u00e3o de que os possa salvar ou faz\u00ea-los her\u00f3is da pr\u00f3pria hist\u00f3ria. <br \/>\r\nE a prop\u00f3sito deste livro \u2018\u2018Lagartos de Madeira e Zinco\u2019\u2019 vale lembrar o que Baudelaire escreveu sobre \u2018\u2018Os miser\u00e1veis\u2019\u2019 de Victor Hugo: \u2018\u2018Enquanto existir, por obra das leis e dos costumes, uma dana\u00e7\u00e3o social que crie, artificialmente, infernos em plena civiliza\u00e7\u00e3o e que complique com uma fatalidade humana o destino que \u00e9 divino\u2026 Enquanto houver na terra, ignor\u00e2ncia e mis\u00e9ria, livros da natureza deste aqui poder\u00e3o n\u00e3o ser in\u00fateis\u2019\u2019.<\/p>\r\n<p>(Por Elton Pila)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A capa deste \u2018\u2018Lagartos de Madeira e Zinco\u2019\u2019 anuncia um livro de cr\u00f3nicas, este g\u00e9nero num p\u00eandulo entre o Jornalismo, enquanto aquele texto que tenta ser um flagrante do real e a Literatura pela forma que este flagrante do real nos chega &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2123,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"wds_primary_category":1,"footnotes":""},"categories":[3,16],"tags":[],"class_list":["post-2049","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-culture","category-destacadas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2049","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2049"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2049\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2124,"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2049\/revisions\/2124"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2123"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2049"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2049"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mozavibe.co.mz\/pt_PT\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2049"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}