Num país onde o acesso a bolsas internacionais ainda é pouco divulgado, a história de Elina Ricotso Chiluvane surge como um incentivo para jovens que acreditam que estudar no exterior é um sonho distante.

Mãe, casada e profissional da área financeira, construiu o seu percurso com base na persistência e na convicção de que o sucesso depende mais de preparação do que de talento extraordinário. Foi assim que conquistou a prestigiada bolsa Chevening, uma das mais competitivas do mundo.
Formada em Contabilidade e Finanças pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM) em 2018, trabalhou durante seis anos no sector financeiro. Apesar da experiência, sentia que precisava ir além.
“Havia um espaço vazio na área de planeamento e reporting financeiro. Eu queria ampliar o meu conhecimento e ter um horizonte mais amplo”, explica. Esse desejo de crescimento profissional tornou-se o ponto de partida para a candidatura.
A oportunidade surgiu por meio do marido, que lhe falou da Chevening. A partir desse momento, iniciou uma fase intensa de pesquisa. Procurou informações com antigos bolseiros, familiares e conhecidos, e mergulhou na internet para compreender os critérios de elegibilidade.
Descobriu que era necessário ter licenciatura, domínio do inglês e cumprir as exigências académicas das universidades, além de apresentar uma candidatura sólida. O facto de a bolsa ser totalmente financiada reforçou a sua confiança.
O processo de candidatura revelou-se exigente. Os candidatos devem elaborar quatro ensaios fundamentais. O primeiro aborda liderança, exigindo exemplos reais de impacto e transformação. O segundo trata do networking, mostrando como o candidato mobilizou pessoas e parcerias para alcançar objectivos. O terceiro explora a razão da escolha do país, da bolsa e das universidades. Já o quarto exige a definição de um plano de carreira, com metas de curto e longo prazo.
Além da candidatura à bolsa, é necessário concorrer separadamente a três universidades. Elina escolheu o mestrado em Investimento e Finanças na Strathclyde Business School, da University of Strathclyde, em Glasgow, na Escócia, atraída pelo reconhecimento académico da instituição.
Para aumentar as hipóteses de sucesso, conectou-se com candidatos e bolseiros de vários países, participou em grupos internacionais, procurou mentorias, assistiu vídeos e simulou entrevistas.
“A pesquisa e a preparação fizeram toda a diferença”, afirma.
Mesmo sendo financiada, a fase inicial envolve custos próprios. Entre eles, o exame académico de inglês, o teste de tuberculose e despesas de comunicação e internet. No total, estima ter gasto cerca de 50 mil meticais.
Um dos momentos mais difíceis foi quando o teste de tuberculose deu inconclusivo devido a uma gripe, atrasando o processo e quase comprometendo a oportunidade. Determinada, conseguiu adiar a bolsa para o ano seguinte, algo pouco comum.
“Foi uma lição de persistência. Não podemos desistir”, recorda.
MELHOR ESTUDANTE AFRICANA
O percurso académico não foi fácil. Como falante não nativa de inglês e regressando à academia após seis anos, enfrentou desafios linguísticos e metodológicos. Ainda assim, conseguiu superar e transformar dificuldades em conquistas. Graduou-se com Distinção, obteve um Certificado de Alto Desempenho e recebeu o Prémio Bashourun Abiola em Contabilidade e Finanças, atribuído ao estudante africano com melhor desempenho académico no departamento.
Após regressar a Moçambique, conseguiu emprego na área de planeamento e análise financeira, concretizando o objectivo que a motivou desde o início. Hoje, partilha a sua experiência com outros jovens e insiste que o principal segredo é ter clareza de objectivos e acreditar no próprio potencial.
“Não precisa ser um génio para conseguir a bolsa. É preciso foco, preparação e trabalhar duro”, sublinha.
Para Elina, é fundamental que as oportunidades de bolsas sejam mais divulgadas no país, permitindo que mais jovens tenham acesso a formação internacional. A sua trajectória deixa uma mensagem clara, sonhos tornam-se possíveis quando há informação, persistência e coragem para enfrentar desafios.
(Por Renaldo Manhice)

