Faduco: o lixo pode ganhar novo valor

“O que recolhemos volta a ter utilidade", Rui Faduco, em entresta à MozaVibe.

Foto: Rui Faduco

A Associação Juvenil para Desenvolvimento Comunitário (AJUPADEC) foi fundada em Outubro de 2022, na província de Inhambane, como resposta directa à devastação causada pelos ciclones que atingiram a região naquele ano.

A sucessão de desastres naturais expôs a vulnerabilidade da população local e despertou um grupo de jovens para a urgência de agir. Uniram-se, então, com o propósito de encontrar soluções locais, promover o desenvolvimento sustentável e fortalecer a resiliência comunitária diante dos efeitos das mudanças climáticas.

Em entrevista à revista Mozavibe, o presidente da AJUPADEC, Rui Faduco, afirmou que enfrentar os desafios ambientais exige o envolvimento de todos. “A solução frente aos problemas ambientais deve ser colectiva”, defende.

Foto: Rui Faduco

Para ele, a mobilização social é essencial, pois os impactos são compartilhados e as respostas devem incluir quem está na linha de frente. Essa visão de inclusão foi também uma das motivações para a criação da associação. “Percebemos que não podíamos esperar apenas pelo governo, era preciso agir”.

Faduco critica a falta de participação das comunidades nas decisões que impactam os seus territórios. “Muitas vezes, projectos ou empreendimentos são decididos entre quatro paredes, sem ouvir os jovens ou a população local”, diz.

Defende que a participação cidadã não é um favor, mas um direito fundamental e um factor decisivo para o sucesso de qualquer iniciativa.

“Queremos que as pessoas se sintam parte do processo, que tenham voz e possam influenciar os rumos do lugar onde vivem”, explica.

A actuação da AJUPADEC tem sido marcada por projectos variados, voltados à educação ambiental e sustentabilidade. A organização promove palestras, workshops e campanhas de limpeza em praias, mares e mangais, onde são recolhidos resíduos como vidro, papel, plástico e ferro. Grande parte desses materiais são reciclados, reutilizados ou transformados em arte, como parte de uma abordagem baseada na economia circular.

“O que recolhemos volta a ter utilidade. Estamos a mostrar que o lixo pode ganhar novo valor”, explica Faduco.

Entre as iniciativas em curso, destaca-se o projecto Ecocivismo, direccionado a crianças do ensino primário. O objectivo é formar uma nova geração mais consciente sobre o meio ambiente.

“Queremos que as crianças cresçam entendendo o valor da liderança, do voluntariado e da cidadania. Que saibam, desde cedo, a importância de cuidar do planeta”, afirma.

O envolvimento da comunidade nas acções da associação tem sido cada vez maior. “A experiência tem sido muito positiva. A sociedade está mais desperta para a necessidade de agir, de fazer algo para que esses eventos extremos deixem de afectar tanto as nossas vidas, acrescenta”

Para o futuro, a AJUPADEC pretende ampliar seu alcance e fortalecer a luta por justiça climática, sempre com foco na participação comunitária. “Se um evento afecta a todos, a resposta também precisa ser de todos”, conclui Rui Faduco. “As decisões não podem continuar a ser tomadas em espaços fechados. Quem sofre as consequências precisa ter voz nas soluções.”

(Por Renaldo Manhice)