Desnutrição continua "crónica" no Centro e Norte

A desnutrição crónica continua a ser um dos principais desafios de saúde pública em Moçambique, sobretudo nas regiões Centro e Norte.

Foto: Freepik

O mal afecta sobretudo mulheres grávidas e crianças menores de cinco anos, com maior incidência nas províncias de Cabo Delgado, Nampula e Sofala.

Dados recentes revelam que quatro em cada dez crianças moçambicanas sofrem de desnutrição crónica, um número alarmante que reflecte o impacto severo da pobreza e insegurança alimentar no desenvolvimento infantil.

De acordo com a Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), em coordenação com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a persistência desta situação está associada a diversos factores, entre eles a fraca coordenação intersectorial, a ausência de orçamentos definidos para actividades nutricionais e a falta de metas e indicadores nutricionais nos planos locais.

Como resposta, a FDC e o UNICEF defendem que o país deve integrar a nutrição nos instrumentos de planificação nacional e local, estabelecendo metas orçamentais específicas para cada sector.

Ambas as organizações sublinham ainda a importância de fortalecer a coordenação entre as diferentes instituições do Estado e expandir programas nutricionais de base comunitária, de modo a garantir maior alcance e impacto junto das comunidades mais vulneráveis.

Outra medida considerada essencial é o reforço da cooperação com organizações nacionais e internacionais, com o objectivo de mobilizar mais recursos financeiros destinados ao combate à desnutrição.

Para Graça Machel, Presidente do Conselho de Administração da FDC, é urgente transformar a nutrição numa prioridade estratégica para o desenvolvimento do país.

“A ciência já comprovou. Agora nós vamos continuar a repetir os princípios e aquilo que a ciência diz, ou vamos começar a imaginar o que é que isto quer dizer na nossa prática em 2025? Eu opto por não repetir só os princípios”, afirmou.

A activista social destacou igualmente a importância da educação nutricional como ferramenta de mudança de comportamento, especialmente junto de famílias com crianças pequenas.

A FDC alerta que os custos associados ao combate à desnutrição têm vindo a aumentar, afectando não apenas o sector da saúde, mas também a produtividade social e económica do país.

A organização lembra que a nutrição é um factor determinante para o desenvolvimento, pois influencia directamente a capacidade de produção e o desempenho nas diversas esferas da economia nacional. Assim, a insegurança alimentar e nutricional representa um desafio estrutural que limita o progresso sustentável de Moçambique.

Já o Sistema Nacional de Informação de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN) considera que investir na nutrição é investir no futuro do país, uma vez que uma população bem nutrida apresenta melhor desempenho escolar, maior produtividade e contribui para o crescimento económico.

Segundo o SETSAN, “investir na nutrição é um acto de justiça social”, pois garante a todas as crianças e famílias oportunidades reais de desenvolvimento, reduz desigualdades e fortalece a capacidade do país para progredir.

Apesar da existência de políticas e programas orientados para a segurança alimentar e nutricional, a sua implementação continua a enfrentar obstáculos, nomeadamente a falta de financiamento adequado e a necessidade de uma abordagem mais integrada e com maior compromisso interinstitucional.

Especialistas defendem que apenas com uma acção coordenada, financiamento sustentável e educação nutricional contínua será possível reduzir a desnutrição crónica e promover um futuro mais saudável para as próximas gerações moçambicanas.

(Por Joana Mawai)