Nos últimos anos, os moçambicanos têm aprendido a viver com a imprevisibilidade da natureza. Ciclones devastadores, secas prolongadas e cheias repentinas transformaram-se em capítulos repetidos da vida nacional.

Em 2024 e 2025, os ciclones tropicais Chido, Dikeledi e Jude atingiram o norte do país, já fragilizado pela crise humanitária em Cabo Delgado, deixando mais de 2,4 milhões de pessoas afectadas e milhares de infra-estruturas destruídas.
É nesse cenário que o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) acaba de inaugurar, em Maputo, a Sala de Situações, um espaço moderno, integrado e conectado com sistemas regionais e continentais de alerta precoce.
A presidente do INGD, Luísa Meque, destacou que esta sala coloca Moçambique na linha da frente da cooperação africana em matéria de prevenção de riscos.
“Estamos ligados à União Africana e à SADC, num sistema que permite acções antecipadas multi-riscos, reforçando a nossa capacidade de resposta”, afirmou.
Na prática, isso significa que quando um ciclone se formar no Índico ou uma seca prolongada ameaçar as colheitas, os alertas chegarão mais cedo e a resposta poderá ser organizada de forma mais rápida e eficaz. Para comunidades que vivem entre a esperança e o medo de cada nova época chuvosa, essa diferença pode significar vidas salvas, menos destruição e mais resiliência.
A modernização da Sala de Situações integra o programa “Prontos para Agir”, financiado pela Cooperação Italiana com assistência da Fundação CIMA Research We-World e orientação do Departamento Italiano de Protecção Civil. Além de Maputo, uma sala piloto na Beira reforça a ligação entre os níveis nacional, provincial e local, garantindo maior fluidez na comunicação.
Na inauguração, o embaixador da Itália, Gabriele Annis Philip, relembrou os 50 anos de cooperação entre os dois países e frisou.
“Não somos apenas doadores, somos parceiros. Estamos aqui para construir, passo a passo, um futuro mais seguro e sustentável.”
A experiência italiana em gestão de desastres, consolidada após o terramoto de Irpina em 1980, inspira hoje soluções que Moçambique adapta à sua realidade.
Por trás da tecnologia e da diplomacia, o que está em jogo é o futuro de milhões de moçambicanos. Agricultores que dependem da chuva para plantar, famílias que vivem em zonas costeiras vulneráveis, crianças que vêem a escola ser interrompida sempre que uma tempestade atinge o país, todos serão beneficiados por um sistema que promete reduzir riscos e proteger vidas.
Com a nova Sala de Situações, o país dá um passo decisivo para transformar vulnerabilidade em preparação. Um investimento que não elimina os fenómenos naturais, mas que permite enfrentá-los com mais organização, menos perdas e mais esperança.
(Por Renaldo Manhice)

