
O Teatro sempre foi, e ainda é, um espaço onde o corpo e a alma se encontram num único momento de pura troca. A magia de assistir a uma peça ao vivo, de sentir o calor da interacção entre o actor e o espectador, é algo que nenhuma tecnologia consegue replicar verdadeiramente.
No entanto, este encanto está ameaçado. Durante um colóquio promovido pela Associação Moçambicana de Teatro (AMOTE) e pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane (ECA-UEM), os profissionais do teatro discutiram um fenómeno que está a retirar, pouco a pouco, a essência deste encontro humano tão especial: a era digital.
Comemorando o Dia Mundial do Teatro, celebrado a 27 de Março, o evento foi uma reflexão profunda sobre os desafios e os riscos que o teatro enfrenta hoje, numa época em que as redes sociais dominam a maneira como comunicamos e consumimos arte.
O colóquio, intitulado "Por um teatro mais inclusivo e o desafio da era digital", contou com a participação de grandes nomes do panorama teatral como os professores Marcial Macome, Sabina Tembe e Victor Gonçalves, todos defendendo com paixão a ideia de que o teatro precisa de manter a sua alma viva, com um contacto directo e genuíno com o público.
O actor e encenador Venâncio Calisto, que moderou o debate, iniciou com a leitura da mensagem internacional do Dia Mundial do Teatro, assinada por Theodoros Terzopoulos, um conceituado nome grego da dramaturgia. No entanto, o foco cedo se virou para as questões actuais que assolam o teatro, com a crescente dependência das plataformas digitais.
Victor Gonçalves, com a sua experiência e visão apurada, alertou para o perigo da perda de verdadeiro diálogo entre artista e público. Para ele, o feedback das redes sociais, embora tenha o seu valor, não substitui a troca emocional e imediata que se estabelece num teatro.
Sabina Tembe, com a sua visão de actriz, falou do que realmente a motiva: a presença do público. Ela não consegue imaginar a arte de se apresentar sem sentir, de facto, a energia das pessoas que a assistem.
“Não há nada como aquele momento em que o espetáculo se torna uma troca única e instantânea”, declarou. As redes sociais, defende, podem oferecer um espaço para divulgar, mas não podem ser um substituto do calor da presença do outro, do público que vibra em conjunto.
Marcial Macome, muito reflexivo, não deixou de pontuar também o uso das redes sociais como uma ferramenta para divulgar e promover o trabalho artístico, mas com uma ressalva: “O teatro precisa da presença, da vivência, do ser no espaço”.
(Por Lucas Muaga)