Entre o oral e o lápis: a nova vida “Ualalapi” em Banda Desenhada
"Ualalapi", obra clássica do escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, publicada originalmente em 1987, ganha uma nova leitura através da banda desenhada, numa adaptação que cruza memória, história e linguagem visual.
Foto: JN
O romance, um dos mais relevantes da literatura moçambicana, nasceu das histórias que o autor ouvia dos seus avós sobre o Império de Gaza, num exercício de transposição da tradição oral para a escrita.
“Eu segui o lado da tradição oral. Ouvi histórias dos meus avós e puxei esse espírito para a língua portuguesa”, recorda o autor, explicando que a obra procura respeitar a lógica e a estrutura do pensamento das línguas moçambicanas, ainda que escrita em português.
Foi a partir desta base que o arquitecto e ilustrador, Adérito Wetela, carinhosamente chamado por Dedé, decidiu recontar Ualalapi em banda desenhada, conferindo à obra uma nova aura e ampliando o seu alcance junto de outros públicos, sobretudo os mais jovens. A adaptação é publicada pela Editora Trinta Zero Nove.
O lançamento da obra teve lugar no distrito de Marracuene, no município do mesmo nome, num evento moderado por Sandra Tamele, que ao contextualizar o momento, sublinhou a importância das linguagens visuais como ponto de referência para a compreensão de outras formas de comunicação, incluindo a linguagem inclusiva. Lembrou que, durante muito tempo, estas expressões estiveram afastadas dos espaços centrais do saber, relegadas para “atrás das bibliotecas”, sem o devido reconhecimento.
A publicação resulta do encontro entre três figuras centrais: Ungulani Ba Ka Khosa, autor do romance original; Dedé, responsável pela adaptação gráfica; e Sandra Tamele, editora e fundadora do espaço que acolheu o lançamento.
“Ualalapi é um romance histórico escrito por um historiador”, sublinhou Ungulani, situando a obra no contexto político e social da sua publicação. “Saiu em 1987, numa altura em que publicar não era simples. Havia sempre o receio de como o livro seria recebido.”
Segundo o autor, o livro ganhou autonomia ao longo dos anos. “O mais importante é que o livro está vivo. Já não me pertence, anda sozinho”, afirmou, referindo-se à permanência da obra no imaginário literário nacional.
A adaptação para Banda Desenhada nasceu muito antes da formação académica de Dedé. “Ualalapi foi feito antes mesmo de eu entrar para a faculdade. Sempre gostei de desenhar e, durante muito tempo, fiz histórias inspiradas nos super heróis da Marvel e da DC”, contou.
Com o tempo, sentiu a necessidade de contar histórias locais. “Desafiei-me a fazer histórias nossas, que reflectissem a nossa história como moçambicanos”, explicou, acrescentando que a leitura atenta do romance foi determinante para o processo criativo. “Li o livro várias vezes. Tive de entrar para dentro dos personagens e desenhar exactamente aquilo que o autor escreveu.”
Para o ilustrador, a linguagem visual permite que a história chegue a leitores que, muitas vezes, não têm acesso ao romance.
“Há leitores que não chegam ao texto literário, mas chegam à banda desenhada. E isso é fundamental para criar hábitos de leitura” Sublinhou.
Ungulani partilha da mesma visão e destacou a importância da literatura infantil e juvenil e da Banda Desenhada no país.
“É triste ver jovens que chegam à décima segunda classe sem nunca terem lido uma banda desenhada. Este livro ajuda a massificar o acesso à leitura”, afirmou, apelando aos pais para que priorizem o livro como instrumento de formação.