There were 43 femicides and 42 rapes in just nine months. These statistics conceal screams, pain, blood, and silence. Each case is not just a number: it was the path of a life cut short, a body violated, a childhood stolen. Behind these figures, women, girls, and children carry the pain of human malice that feeds on the fragility of others.

Quarenta e três mortes significam luto em 43 famílias. Quarenta e duas violações representam traumas em 42 mulheres, raparigas e nos seus familiares. Estes números dizem respeito apenas às violências tornadas públicas, o que implica que há muito mais mulheres caladas bruscamente no país.
Entre os factores que sustentam a persistência deste mal que assola a sociedade, destacam-se as fragilidades das instituições públicas e a prevalência de narrativas sociais que não defendem a vida e a dignidade das mulheres.
O feminicídio vai além de ser o acto de matar uma mulher: é a tentativa de matar a dignidade, de sufocar a liberdade e de enterrar a esperança de toda uma sociedade. É o crime que denuncia a incapacidade de proteger quem mais precisa, revelando uma crueldade que transforma o lar em campo de guerra e o companheiro em carrasco.
A violação sexual, por sua vez, fere mais do que a pele: humilha, cala e condena as vítimas a uma prisão invisível de trauma. Não há maior malícia do que invadir o corpo de uma rapariga ou de uma mulher, reduzindo a sua existência a um objecto de prazer forçado. Cada violação é um ataque à humanidade inteira, pois arranca a inocência de quem ainda acreditava no respeito, no amor e na compaixão.
Dados da Procuradoria da República de Moçambique revelam que, a cada dois dias, uma em cada duas mulheres é assassinada. Para o Secretário de Estado do Género e Acção Social, Abdul Razak Esmail, trata-se de actos que “banalizam a vida humana”, uma vez que, dia após dia, diferentes formas de violência não só ceifam vidas, mas também destroem os valores mais elementares que sustentam a convivência humana.
Quando a sociedade assiste impassível à repetição destes crimes hediondos, a mensagem que ecoa é de permissividade e impunidade. É uma leitura que também faz a activista social Quitéria Gueringane, que considera que a malícia destes actos não se mede apenas pelo sofrimento imposto às vítimas, mas também pela indiferença que os acompanha. Para ela, cada mulher assassinada, cada rapariga violada, é a prova de que ainda se vive num lugar onde a vida delas vale menos.
A activista lamenta ainda a fragilidade das instituições públicas e a persistência de determinadas práticas culturais que conferem poder aos homens sobre as mulheres, perpetuando o ciclo da violência em Moçambique.
E enquanto o sangue continua a correr em Maputo, Sofala e Gaza, que são as províncias com maior incidência destes crimes, a pergunta que ecoa é: quantas mais mulheres terão de ser sacrificadas para que se entenda que o feminicídio e a violação sexual não são casos isolados, mas sim sintomas de um mal profundo que corrói o país?
(Por Joana Mawai)

